Afinal, o que é consumo consciente?

Enquanto de um lado surge cada vez mais jovens bloggers, vloggers e instagrammers para mostrarem onde conseguir a peça do momento com o menor custo possível, do outro lado o movimento slow fashion ganha mais adeptos a cada dia. O momento é de transformação e é chegado o momento de tomar um partido.

Atire a primeira pedra quem nunca se viu atraída pela nova montra da estação, se perguntando qual de todas aquelas peças será o “must-have” do momento ou então, quem nunca caiu em tentação em comprar algo que não estava 100% convencida, mas que por ser da última tendência acabou por levar – e não usar. Pois é. Acontece e vai sempre acontecer, pois estamos formatados para isso. Desde que o consumo tornou-se consumismo, vivemos em permanente estado de ansiedade, constantemente encorajados a consumir o que precisamos e o que não precisamos de forma desenfreada. Hoje, precisar e desejar tem a mesma conotação e, pela facilidade de acesso, ficamos muitas vezes confusos e consumimos (em demasia) aquilo que nem sequer daremos uso. Por essa razão, temos a constante sensação de nunca ter o suficiente e estarmos sempre a precisar de muito mais.

Depois de um terço dos recursos da terra terem sido consumido neste processo de auto-destruição, o mundo está desesperado por alternativas. E se toda mudança precisa começar por algum lugar, esta precisa acontecer dentro de nossa consciência. Ainda que tenhamos algumas boas iniciativas de consumo sustentável, como o sharing economy por exemplo, ainda não é o suficiente para reduzir o nosso desejo de consumo. É simplesmente redução de propriedade. Para ser mesmo eficaz, precisamos quebrar a lógica que foi implantada em nossa mente antes de cedermos a qualquer impulso de consumo. É preciso entender um pouco sobre a cadeia de produção, refletir sobre as nossas necessidades pessoais e as ofertas de mercado, ponderar os impactos negativos e positivos das opções disponíveis e, só então fazer a nossa escolha. Isso é consumir conscientemente, o agora em voga “lowsumerism.

Um pouco mais complexo do que a maioria imagina, o consumo consciente não está somente e necessariamente ligado à compra de produtos “verdes” – ecologicamente corretos: orgânicos, reciclados, naturais, etc. Mais do que isso, consumo consciente é entender os impactos do nosso consumo, para além das características do produto e considerar não só o meio-ambiente, mas também as pessoas envolvidas neste processo.

Complicou? Então, vamos simplificar. Isso tudo quer dizer, que o primeiro passo para um consumo consciente é entender que nós não só somos parte do problema, como também a solução dele. Isso porque só nós temos o poder de desacelerar a indústria e diminuir os trágicos danos sociais e ambientais que o nosso consumismo exacerbado vem causando há quase um século. É preciso estarmos dispostos a reeducar nossa mente constantemente e sair desse circulo vicioso. Dado esse primeiro passo, então seguimos a diante:

Eu realmente preciso disso ou será que estou estou comprando para suprir uma carência emocional?

Se o motivo da sua compra for a real necessidade de substituição de uma peça desgastada ou a aquisição de uma peça-chave, então a sua compra já é consciente. Se esse não for o caso, analise se a peça em questão é versátil, veste bem e se tem certeza que vai usá-la várias e várias vezes. Se tiver dúvidas em uma dessas questões, então pare, pense e se for o caso, volte outro dia. Pensar se realmente precisa, para quê e porquê vai te ajudar a fazer uma compra inteligente.

Outra situação a ponderar é se não estamos fazendo isso para suprir uma carência emocional. Comprar deve ser divertido, mas não deve ser uma fuga ou recompensa. Roupas novas não vão suprir nossa falta de autoestima, nossa tristeza (ou depressão), nossa carência afetiva, nem vão curar um relacionamento vazio ou uma vida sem propósito. Se a sua relação com o consumo estiver frenética, constante ou dolorosa, então faça uma auto-avaliação sincera e, se for preciso, busque ajuda.

Será que já não há nada muito parecido no guarda-roupa? 

Por mais que você adore a peça e ache-a linda e útil, pense em tudo aquilo que você já tem e se realmente este investimento não é um desperdício. Ainda que goste muito de uma peça, não caia em tentação de levar mais que uma em cores diferentes. Tenha uma, use-a bastante e cuide bem dela. Ela vai durar o tempo que precisa e você vai tirar o melhor proveito dela.

Outra possibilidade é criar algo novo a partir daquilo que está parado no armário. Com alguns pequenos ajustes e alguma criatividade, você pode transformar ou simplesmente reformar uma peça que goste muito e assim prolongar o tempo de vida útil dela. Se a peça custou algum dinheiro e está perfeita, pode considerar troca-la com uma amiga ou num evento que promova esse tipo de iniciativa.

Essa peça está em sintonia com meu life style?

Incontáveis são as vezes que as pessoas reclamam de terem um armário cheio, mas sem nada de jeito para vestir. Muitas vezes isso acontece porque investem constantemente em peças tendências que são marcantes e cansa-se fácil ou porque compram condicionalmente: isso é para quando eu tiver uma festa, isso é para quando eu tiver uma ocasião x, isso é para quanto eu emagrecer, e assim vai…

Opte por peças que possam usar usadas em qualquer situação e que sejam fáceis de cuidar. Ter um guarda-roupa que exija cuidado específico, para além de não ser nada prático é dispendioso. Grave na mente como um mantra: praticidade é fundamental.

Eu posso pagar por melhor qualidade?

Nem sempre os saldos e a necessidade de compra andam de mãos dadas. Muitas vezes é necessário fazer algum sacrifício na hora de ter acesso à melhor qualidade. A reflexão que sugere-se aqui é: será que não posso pagar um pouco mais por algo melhor? Antes de responder, considere todo o ciclo de vida do produto – da produção ao descarte. Valorizar a qualidade significa usa-la mais vezes e maior resistência   do tempo. Por isso, qualidade é um fator importante a se pesar e, normalmente, ela custa um pouco mais.

Poder comprar uma peça de uma marca nacional, que produz e conhece seus fornecedores, que preza por um comércio justo e que garante o respeito em suas relações, seria sem dúvida o ideal e, acredito que num futuro muito próximo teremos muitas opções assim. Enquanto isso não acontece, valorizar o produto, cuidando para que fiquemos com ele pelo maior tempo possível é um grande começo.

Essas simples atitudes juntas podem desencadear um enorme impacto no mundo se todos nós as fizermos. O consumismo embora seja uma mentalidade ultrapassada, está enraizada em nossas mentes. Desacelerar, reavaliar, tomar a nossa responsabilidade e tornar (ativamente) parte da mudança é o único caminho para um mundo mais ético, saudável e equilibrado.

Afinal, podem parecer só coisas, mas por trás delas há pessoas, animais e todo o nosso planeta que merecem e precisam de um pouco mais do nosso respeito.